A arrancada do Português

No terceiro mandato à frente da Federação Gaúcha de Automobilismo, Carlos Alberto Rodrigues de Deus conta sua trajetória até chegar ao comando da principal entidade regional do automobilismo brasileiro.

A reportagem da Federação Gaúcha de Automobilismo (FGA) conversou e conheceu mais intimamente o seu carismático comandante – atualmente, no terceiro mandato – em três oportunidades no final do ano, as duas primeiras durante os dois últimos dias do Segundo Festival de Arrancada do Velopark e, por último, nos bastidores das 12 Horas de Tarumã, que neste ano voltaram a viver seus melhores momentos com um novo regulamento e um grid composto apenas de carros do Gaúcho de Marcas e Pilotos, sem a presença dos caros protótipos que dominaram a principal prova de longa duração do Brasil desde 1999 mas acabaram tirando a essência da corrida de endurance nacional.

Nascido em Coimbra – daí a razão de seu apelido, Português -, Carlos Alberto Rodrigues de Deus, de 67 anos, chegou com a família ao Brasil quando tinha apenas nove anos de idade, primeiramente, aportando na cidade de Santos (SP). Era o ano de 1961 – um antes das primeiras 12 Horas, que seriam disputadas nas ruas empoeiradas da Zona Sul da capital gaúcha e ficariam com o nome complementar “de Porto Alegre” até 1968, com a vitória de um tal de Emerson Fittipaldi antes do início da trajetória europeia gloriosa do “Rato”. O menino Carlos ainda não sabia, mas quando pisou no Brasil já estava “contaminado” com a chamada gasolina no sangue e a consequente paixão pelas corridas de automóveis.

Nos primeiros anos escolares na nova terra, o garoto Carlos acabaria sofrendo o que hoje é conhecido como “Bullying” por só falar a língua-mãe, sem nenhum sotaque abrasileirado.

– Confesso que aquilo me incomodou bastante – lembra Carlos. – Com o passar dos anos, porém, acabei gostando do apelido e, ainda bem antes de entrar para o mundo do automobilismo, já atendia mais por Português do que pelo meu próprio nome.

Já no Rio Grande do Sul e formado como Engenheiro Civil pela Católica de Pelotas – profissão que exerceu na prática até a aposentadoria -, Carlos de Deus acabou revelando no Velopark o motivo de seus olhos brilharem em cada partida de duelo de dois carros no Festival de Arrancada. Em 1982, na cidade de Santa Maria, ele foi literalmente o pai do que se convencionou chamar no país de “Quilômetro de Arrancada”. “No começo, era tudo improvisado, meio irresponsável e com a ajuda de amigos e de gente que queria acelerar seu carro em uma competição minimamente organizada”, conta. Entretanto, a veia de piloto logo deu lugar a de dirigente, fundando o Clube Santa Maria de Arrancada, existente até hoje.

Apaixonado por Kombis, Carlos Alberto interrompe uma conversa paralela que apontava o posto de “Piores Carros da História” ao Fusca e à Kombi. “A Kombi, não!”, protestou em tom amistoso mas com veemência. O Português gostava de pilotar e de mexer na parte mecânica, que direcionou para apoiar seus dois filhos, Aníbal e Álvaro, no kartismo. O agora piloto aposentado, fazia sozinho toda a preparação dos karts dos meninos, no entanto, depois que seus filhos decidiram encaminhar suas vidas para outros rumos, o Português confirmaria uma máxima: “Pior que mãe de miss, só pai de piloto”:

– Dava todo o apoio aos guris no kart, mas morria de medo ao vê-los correndo, apesar de nunca ter tido medo quando eu era o piloto. Sempre quando eles estavam na pista, não tirava o olho dos dois. Confesso que fiquei feliz quando eles decidiram parar naturalmente, sem influência minha.

Aí, outra “bandeira” do presidente se revela facilmente: a segurança. Comandante da principal e mais organizada Federação do Brasil, Carlos de Deus não abre mão da segurança nas pistas, seja em competições no asfalto, em arrancadas, em ralis, em prova de terra e de kartismo, todas no guarda-chuva da FGA, além de participar das etapas nacionais, como a Stock Car e a Copa Truck e ser responsável pela parte técnica e oficial de quatro autódromos – Tarumã, Velopark, Guaporé e Santa Cruz do Sul – nenhum outro Estado brasileiro tem perto desse número de circuitos. Em Tarumã, poucos minutos antes da largada das 12 Horas, Carlos Alberto revelaria uma contribuição particular para o regulamento da prova deste ano: a obrigatoriedade de pit stop com tempo mínimo de dois minutos e meio para todas as equipes.

– Nem todas as equipes têm gente capacitada à altura para fazer o reabastecimento de combustível do carro. Então, estipulei um tempo suficiente para todos fazerem as paradas com calma. O automobilismo deve ser rápido, mas a segurança deve ter seu tempo certo – ensina. Como resultado, em quase trezentos reabastecimentos durante as 12 Horas deste ano, nenhum incidente foi registrado.

Morador de Pelotas, na zona sul do Estado, o Português despacha e faz reunião com toda a equipe às terças-feiras e está presente em quase todas os eventos automobilísticos no Rio Grande do Sul. Quando foi dada a largada das 12 Horas, ele estava na torre de cronometragem e da direção e dos comissários de prova:

– A partir de agora, sou um simples espectador. Todas as decisões e o comando da prova são deles – aponta para sua equipe de pista. Aliás, o trabalho dos comissários durante todos os minutos das doze horas de corrida é uma coisa insana, com detalhes, pedidos e reclamações das equipes surgindo a todo o momento.

Casado com Dona Rosecler, Carlos Alberto Rodrigues de Deus nem pensa em parar e deixar o comando da FGA, cargo que ocupa com a maior paixão pelo esporte a motor desde 2008, quando passou de vice de Nestor Valduga para a presidência. No início, foi Diretor de Arrancada da entidade.

– Pegamos o comando com a FGA quase quebrada. Até nossa sede (em Porto Alegre) estava ameaçada de ser perdida. Fizemos então um trabalho muito sério e muito profissional. Atualmente, o “barco” está navegando em águas calmas, graças ao esforço de toda a nossa equipe – comenta o simpático presidente, fazendo questão de dividir o mérito com seus colaboradores.

Para uma possível reclamação da família por estar ausente de casa em quase todos os fins de semana do ano, o Português, entre risos, conta uma história saborosa:

– Uma vez, disse para a minha esposa que estava pensando em parar. Imediatamente, ela disse: “você está louco? Pensa que vou aguentar te ver deitado no sofá assistindo ao Faustão nos domingos e resmungando da vida? Vá ser feliz e me deixa em paz!”.

Por Daniel Dias / Foto divulgação